Compreender práticas estatais operando em territórios e sobre populações, por meio de instituições, agentes da administração pública e dispositivos de gestão. No mesmo sentido, interessam as práticas de resistências, resiliências e persistências protagonizadas por agentes (especialmente em situações de assimetrias sociais atravessadas por marcadores sociais de raça, classe, gênero, sexualidade, religião, regionalidade, nacionalidade), estejam eles organizados em coletivos políticos ou não.
Produzir projetos em articulação com iniciativas de coletivos, movimentos e ativistas que atuam na cidade e/ou a partir de redes transnacionais. Entendendo que tais atuações nos espaços públicos imprimem marcas específicas e interferem nas dinâmicas na cidade, voltamos nossa atenção para agendas de luta e formas de agenciamento que co-produzem espaços, rotinas e políticas. Refletimos, também, sobre formatos possíveis de produção coletiva de conhecimento, memórias e demandas por direitos.
Compreender a diversidade da gestão territorial à luz do conceito de militarização, compreendido como dispositivo – uma rede de práticas, valores, instituições, entre outros que produzem formas de governar populações e territórios. Para tanto, interessa-nos pesquisar fenômenos como grupos de controle armado diversos, suas formas de atuação e as interconexões entre a atuação de tais grupos, dinâmicas políticas, ações estatais e mercados legais e ilegais, a partir de abordagens interseccionais.
Articular teorias e metodologias para compreender dinâmicas artísticas e culturais que se expressam no (e a partir do) espaço urbano. Analisar suportes enunciativos e como, através de elaborações estéticas e conceituais, agenciam, apresentam e fazem circular representações e imaginários. Abordar as artes enquanto linguagens que fabulam corporeidades, políticas, noções de pessoa, paisagens, territórios, memórias, patrimônios e mobilidades turísticas.
O Rio de Janeiro tem experimentado mudanças no cenário da violência urbana nas duas últimas décadas, especialmente após o Projeto de “Pacificação” de Favelas e o crescimento das milícias. Pesquisas identificaram um aumento no número de regiões em disputa por grupos armados, incluindo áreas controladas por milícias, resultado de rupturas e novas alianças entre os grupos armados. Dessa forma, a maneira como esses grupos exercem seu controle territorial também se modificou, borrando as distinções existentes entre o tipo de gestão das milícias e das facções de traficantes, com diferentes agentes combinando práticas como venda de drogas ilícitas e confrontos armados e a cada vez mais frequente e disseminada prática de extorsão. Este projeto de pesquisa se propõe a investigar os efeitos dessas mudanças na vida dos moradores de favelas e em suas organizações, com particular atenção para as mulheres moradoras desses territórios, considerando que tais efeitos serão experimentados de forma diferenciada por esse grupo. Nosso objetivo é compreender suas estratégias para navegar a precariedade, contornando riscos e acionando redes de apoio e sobrevivência. A partir de uma etnografia nas favelas do bairro do Caju, localizado região central da cidade e sob controle armado de uma facção de tráfico de drogas, buscaremos compreender as dinâmicas de “cerco” impostas pelos grupos armados e seus impactos nas relações sociais e nas condições de vida dos moradores. A relevância deste projeto está em investigar as diversas precariedades a que estas populações estão submetidas por conta do controle armado de seus locais de moradia, ampliando o retrato que temos hoje de como são as condições de vida de parte da população carioca.
A região do Porto Maravilha, Rio de Janeiro, está sendo constituída pela Prefeitura do Rio, Governo Federal e parceiros privados como centro de um “ecossistema de inovação digital” (EID), com especial destaque o “Porto Maravalley”: um hub de educação superior em matemática aplicada e inovação digital que pretende alavancar a cidade como uma “capital da inovação”. O objetivo central é investigar os sentidos, as agências e os efeitos (esperados, inesperados e negligenciados) da construção desse EID (entre 2021 e 2026). Como objetivos específicos, pretendo analisar: a) construção e funcionamento do Porto Maravalley; b) entrelaçamentos, fricções e fluxos de capitais e agentes da economia digital dentro e a partir do Rio de Janeiro. A hipótese central é de que a chegada de “vanguardas sociotécnicas” e “nômades digitais” no Porto Maravilha permitirá a compreensão e a explicação de potencialidades, desafios e ineficácias para este projeto e para projetos semelhantes no país. Partindo de abordagens sociológicas e antropológicas (interdependências e configurações sociais, teoria ator-rede, antropologia das infraestruturas, sociologia das mobilidades), os métodos propostos são de pesquisa qualitativa (etnografia, entrevistas, pesquisas bibliográfica, documental e de notícias, coleta de dados secundários para construção de mapas e gráficos), com pressuposto de articulação entre pesquisa, disseminação de dados e incidência política baseada em grounded theory e phronetic social science. Ademais, a projeto prevê contribuição constante com o grupo de pesquisa Grupo MTTM – Mobilidades: Teoria, Temas e Métodos (USP) e com o PPGS-USP, incluindo pesquisa, docência, workshop e outras atividades de divulgação científica e extensão.
A proposta visa compreender os impactos sociais da pandemia de Covid-19 em diferentes contextos e nas cinco regiões do país, a partir dos efeitos da pandemia sobre as populações em situação de vulnerabilidade, as estratégias locais de enfrentamento e as políticas públicas em saúde, educação e proteção social.
A chacina da Candelária fica marcada na memória política e social do Rio de Janeiro pela crueldade cometida contra crianças e adolescentes na região central da cidade. Hélio e Cláudia Milito (1995) relatam que embora ocorressem linchamentos, desaparecimentos e outros tipos de crueldade com crianças em situação de rua naquele período, uma chacina na “porta de casa” era impossível de negar aos olhos do mundo. Todavia, nota-se que embora a população tenha, em um primeiro momento, se sensibilizado com a tragédia, havia quem concordasse com a atitude dos policiais. A primeira metade da década de 90 é bastante fecunda se tratando do florescimento de uma política de segurança mais repressiva e autoritária, principalmente direcionada aos subúrbios e favelas. O que será que as chacinas dos anos 90, especialmente praticadas contra menores de idade, podem nos dizer sobre a criminalização e o extermínio da juventude pobre do Rio de Janeiro? Teriam as operações policiais substituído às chacinas promovidas pelos grupos de extermínio? “Cinco sementinhas nas ruas do Centro” fala sobre como determinadas categorias de referência podem ser agenciadas na justificativa para a criminalização e até mesmo, o extermínio.
O objetivo mais amplo deste projeto é analisar as ações e práticas de grupos e coletivos culturais que atuam nos subúrbios e na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, visando refletir sobre suas dinâmicas, tanto as mais específicas operadas pelos grupos individualmente, quanto as de cunho mais coletivos, na medida em que formam redes sociais. A atenção recai também em perceber quais são os temas recorrentes nas narrativas desses grupos sobre a vida social naqueles territórios, bem como suas táticas e estratégias políticas na ressignificação dos subúrbios e lutas por reconhecimento. No caso do Rio de Janeiro, o protagonismo desses coletivos faz parte de um cenário recente, que desde cedo chama a atenção por sua vitalidade, ao incorporarem outras pautas ligadas aos campos da cultura e da identidade. É justamente por isso que entendo que estes coletivos podem ser considerados como uma das modalidades mais expressivas dos movimentos sociais contemporâneos.
A pesquisa analisa os atuais acionamentos e produções interpretativas das trajetórias de vida e intelectual da psicanalista negra Neusa Santos Souza (1951-2008), com ênfase na importância atribuída ao seu livro Tornar-se negro: ou As vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social (1983/2021) e seus efeitos aos campos acadêmico e político. Com olhar direcionado para o campo de estudos das relações raciais no Brasil, intenta, a partir de etnografia, observação participante em eventos, realização de entrevistas com interlocutores diversos e análise documental de acervos públicos e privados, recompor a trajetória pouco estudada de Neusa Santos e refletir sobre os atravessamentos que partem do marcador racial e de gênero, que suscitam diferentes olhares e leituras sobre a sua memória e obra. Na produção de uma articulação interpretativa sobre obra e trajetória de uma intelectual negra brasileira, a tese discute dimensões relevantes das relações raciais no Brasil e dos debates fomentados em torno do racismo no presente, apontando suas atuais tensões, disputas e transformações. Incorporando discussões contemporâneas acerca das noções de racialização, memória, epistemicídio, branquitude e colonialidade, a pesquisa espera ser uma contribuição para a interlocução dos campos psis e sociais, atestando a importância de olhar para o enlace subjetividade-raça, a partir da compreensão da capilaridade inconsciente da “raça”.
Este projeto de pesquisa tem como objetivo central compreender as diversas expressões que o fenômeno da militarização tem assumido no Rio de Janeiro (capital) e municípios da Baixada Fluminense. A militarização – seja no âmbito da segurança pública, seja em sua dimensão política e ideológica, enquanto militarismo – tem se tornado cada vez mais tema de debate público, desde a década passada. No nosso estado, especialmente, o tema da violência urbana tem sido enquadrado a partir do que chamamos de militarização, sobretudo a partir da experiência das Unidades de Polícia Pacificadora e da intervenção federal na segurança pública que as sucedeu. Neste sentido, trabalhamos com a hipótese que a militarização se constitui como uma forma de governo ou ainda como um dispositivo, orientado para o disciplinamento e gestão dos pobres e de seus territórios, sendo portanto operado por uma pluralidade de atores e desenvolvendo-se em uma variedade de contextos. Buscando compreender este fenômeno, este projeto se estrutura a partir de cinco eixos de investigação: i) militarização da vida em territórios periféricos; ii) militarização, mercantilização e produção do espaço urbano; iii) militarização e instituições tutelares; iv) circulação da militarização e perspectivas comparadas; e v) resistências e desvios possíveis em contextos militarizados. Para tanto, utilizaremos metodologia qualitativa etnográfica, mesclando: i) observação participante junto a grupos de ativistas, instituições e seus funcionários e moradores de localidades onde a gestão da vida se dá por alguma forma de controle armado; ii) análise documental – na perspectiva da etnografia de documentos; e iii) pesquisa bibliográfica. O grupo de pesquisadores que apresenta esta proposta se organiza em uma rede de núcleos com reconhecida experiência e contribuição no campo dos estudos sobre violência urbana e territórios periféricos, e pretende com este projeto avançar na produção de conhecimento científico sobre o tema.
O cenário da violência urbana no Rio de Janeiro vem se modificando nos últimos vinte anos. Apostamos, como hipótese analítica, que essas mudanças vêm ocorrendo pela presença cada vez mais significativa de grupos de milicianos que disputam o controle armado dos territórios. A atuação desses grupos tem sua origem e expansão principalmente nas favelas e conjuntos habitacionais localizadas em bairros da Zona Oeste. Essa expansão resultou em um aumento nas disputas pelos territórios tanto entre os diversos grupos que surgiram ao longo desse período, quanto desses com as já conhecidas facções criminosas que tem no tráfico de drogas sua característica principal. O projeto aqui apresentado tem como objetivo analisar as complexas dinâmicas que envolvem esses conflitos e os efeitos das mudanças nas formas de atuação de grupos armados, especialmente nos territórios em disputa, sobre os moradores de favelas e suas organizações locais. Nos territórios identificados como em disputa, a categoria guerra é constantemente acionada tanto pelos moradores quanto pelos meios de comunicação de massa para explicar os conflitos e justificar as mudanças nas rotinas dos moradores, alteradas e posta em risco de forma constante. Contudo, percebemos que também estão sendo ampliadas ações e práticas culturais realizadas em espaços públicos que se contrapõe ao cenário de violência experimentado no cotidiano. Nesse sentido, também é objetivo da pesquisa identificar esses coletivos, mapeando suas atividades e formas de atuação nos territórios.
O objetivo central é compreender as modalidades de atuação de grupos criminosos que operam nas periferias do Rio de Janeiro, principalmente em bairros da zona oeste, desde o início dos anos 2000. Partindo do pressuposto de que a violência urbana apresenta um novo elemento denominado popularmente como milícia espera-se analisar as formas de atuação desses grupos, os dispositivos utilizados para garantir o controle do território e assim identificar os efeitos na vida cotidiana dos moradores.
A população do Rio de Janeiro tem seu cotidiano impactado pela atuação de diferentes grupos armados em territórios periféricos, porém tal atuação tem se modificado substancialmente nas décadas mais recentes. Assim, pretendemos com este projeto contribuir para um melhor entendimento das mudanças e continuidades dos grupos armados na capital fluminense em um cenário de reconfiguração do crime e dos criminosos, a partir de pesquisa de cunho qualitativo e de inspiração etnográfica, tendo como objeto o cotidiano dos moradores de seis territórios periféricos do Rio de Janeiro, divididos em três categorias: territórios em disputa; territórios consolidados sob domínio de um tipo de grupo armado (facção ou milícia); territórios sob controle de novas modalidades de atuação armada.Nos diferentes campos estaremos interessados em observar: a) tipo de presença territorial; b) relação com as organizações locais; c) composição social do grupo de criminosos; d) recursos econômicos explorados (venda de drogas no varejo, serviços, ocupação imobiliária, extorsão de comerciantes, recursos naturais, dentre outras); e e) relação com a população local, tendo como foco prioritário as relações de gênero e geracional.Portanto, buscamos compreender como se produz os diferentes tipos de cerco (Machado da Silva, 2008) em cada um desses territórios e como isso tem afetado as diferentes sociabilidades e produzido diferentes constrangimentos, riscos, dificuldades, incertezas e resistências. Com isso, trazemos o problema do controle social para a dimensão real e objetiva, contribuindo para a reflexão de como esses grupos armados agem, na prática, e assim, subsidiando iniciativas políticas de enfrentamento, enfraquecimento e desarticulação dessa conjuntura criminal.
O presente artigo irá abordar os benefícios que a criação de um museu ferroviário em Teresópolis no bairro Beira Linha poderá trazer no intento de conservar a memória da antiga estrada de ferro e dos patrimônios ferroviários existentes, assim como contribuir com o desenvolvimento territorial e o turismo cultural no município. Iremos observar e analisar os simbolismos contidos nestes patrimônios, para interpretá-los sob a ótica da paisagem cultural e também analisando antigas fotografias que remetem ao trem. Naquele ano de 2008, foi realizada uma exposição sobre a Estrada de Ferro Teresópolis na sede da Secretaria Municipal de Turismo de Teresópolis, onde estava estagiando e havia por parte do Poder Público Municipal, em especial a Secretaria Municipal de Turismo, montar um projeto com intenções de se constituir um museu da estrada de ferro para preservar essa memória. Mas que, todavia, não saiu do papel. Iremos também neste artigo discutir como surgiu essa ideia do projeto e uma breve história da estrada de ferro, suas origens até sua dissolução, assim como a temática do turismo cultural e como ele pode ajudar a desenvolver este segmento Teresópolis.
A atual proposta tem como objetivo investigar a relação entre memória, arte e cidade a partir da presença da temática racial e seus conflitos em uma perspectiva interseccional e de(s)colonial. Para tanto, irá estudar homenagens artísticas feitas a personagens e personalidades negres e racializades; e a ação de artistas negres e racializades que têm muros e ruas da cidade como suporte e espaço preferencial de suas práticas artísticas evocando símbolos, figuras, personagens anônimos ou não que se relacionam à história das populações negras, racializadas e marginalizadas. A memória coletiva é entendida aqui como estando em permanente disputa e construção e o espaço urbano como espaço indispensável para sua feitura. Sendo assim, busca-se nas ruas e muros intervenções que promovem o elo entre história(s) de populações silenciadas e a reivindicação de outros modos de conceber e contar tais histórias (pessoas, datas e lugares) através da arte.
O objetivo deste projeto de extensão é articular uma rede de agentes de promoção turística atrelados à categoria “subúrbio carioca” visando fortalecer pautas e demandas comuns ao grupo nos desafios para a realização dessas iniciativas. Nesse movimento, nos interessa contribuir com saberes e metodologias científicas para o aperfeiçoamento das ações turísticas, refletindo esse universo temático e o que emerge de tais práticas em um espaço urbano marcado por representações sociais negativas.
A pesquisa tem como objetivo estudar o pensamento e a trajetória de artistas-pensadoras negras, indígenas e historicamente racializadas/es que vêm sendo mobilizadas em estudos de(s)coloniais, contra coloniais e pós-coloniais contemporâneos. Tomo como ponto de partida para investigação os trabalhos e trajetórias das artistas afro-diaspóricas Grada Kilomba e Rosana Paulina, referências para a reflexão decolonial no Brasil. Interessa aqui perceber de que maneira ambas articulam produções artísticas e acadêmicas percebidas e interpretadas como decoloniais, considerando suas exposições e obras artísticas, publicações acadêmicas e participações no debate público. Pretende-se, ainda, conhecer como tais contribuições articulam as temáticas da memória coletiva e do trauma colonial, questões caras para se pensar colonialidades do ser, do saber e do espaço (entre outras).